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Tabela Price: Como Funciona no Financiamento de Carro

A parcela é sempre igual — mas o que ela paga muda completamente do mês 1 ao mês 48.

Por Victor dos Santos · Revisado em 23 de setembro de 2026 · 12 min de leitura

A pergunta que ninguém faz até ver o extrato do 20º mês

Um leitor me escreveu preocupado: "paguei 20 parcelas de R$ 2.560 num financiamento de R$ 80 mil, isso dá R$ 51.200 — mas meu saldo devedor ainda está em R$ 58 mil. Isso é golpe?" Não é golpe, é a Tabela Price funcionando exatamente como deveria. O problema é que quase nenhum contrato explica isso de forma clara para quem assina, e o extrato mensal geralmente só mostra o valor da parcela, sem detalhar a composição entre juros e amortização.

Esse tipo de susto é comum porque a percepção intuitiva de "financiamento" é linear: se paguei 40% das parcelas, imagino ter quitado 40% da dívida. Na Tabela Price isso nunca é verdade — a curva de amortização é exponencial, não linear, e entender essa curva é o que separa quem toma boas decisões sobre prazo e quitação antecipada de quem só olha o valor da parcela mensal.

A Tabela Price é o sistema de amortização usado em praticamente todo financiamento de veículo no Brasil. A parcela é fixa do primeiro ao último mês, mas o que essa parcela paga muda inteiramente ao longo do contrato: no começo, ela é quase toda juros; no final, é quase toda amortização do valor principal. Entender essa mecânica muda a forma como você decide prazo, entrada e quitação antecipada.

Regra de ouro da Price: os primeiros meses de um financiamento longo são os que menos reduzem sua dívida real, mesmo pagando a parcela em dia. É por isso que quitar cedo costuma valer tanto a pena.

Comparação da parcela na Tabela Price, que é fixa, com a do SAC, que começa alta e cai R$ 0 R$ 1.079 R$ 2.159 R$ 3.238 R$ 4.318 Price SAC 1 7 13 19 25 31 37 43 mês Valor da parcela
Parcela mês a mês: Tabela Price x SAC — R$ 100.000 em 48x a 1,99% a.m. Simulação SimulAuto — parâmetros no gráfico

Simulação completa: carro de R$ 100 mil, 48 meses, 1,99% a.m.

Vamos usar um exemplo didático: carro de R$ 100.000, entrada de 20% (R$ 20.000), financiando R$ 80.000 em 48 meses a 1,99% ao mês. Os valores abaixo são aproximados — mas o padrão de comportamento é sempre esse, independente do banco.

R$ 2.560Parcela mensal fixa
R$ 122.880Total pago em 48x
R$ 42.880Total pago em juros
ParcelaJuros do mêsAmortizaçãoSaldo devedor após pagar
1ª (mês 1)R$ 1.592R$ 968R$ 79.032
12ª (mês 12)R$ 1.421R$ 1.139R$ 70.529
24ª (metade)R$ 1.176R$ 1.384R$ 57.832
36ª (mês 36)R$ 815R$ 1.745R$ 39.324
48ª (última)R$ 51R$ 2.509R$ 0

Repare: na primeira parcela, R$ 1.592 dos R$ 2.560 pagos são juros — só R$ 968 realmente abatem a dívida. Na última parcela, essa proporção quase se inverte: apenas R$ 51 são juros. É exatamente por isso que quitar um financiamento nos primeiros 12 meses economiza proporcionalmente muito mais juros do que quitar nos últimos 12 — o saldo devedor ainda está perto do valor cheio.

Tabela Price x SAC, lado a lado

Quase todo financiamento de carro no Brasil usa Tabela Price — o SAC (Sistema de Amortização Constante) é raro nesse mercado e mais comum em crédito imobiliário. Ainda assim, vale entender a diferença, porque alguns bancos e financeiras oferecem a escolha em contratos maiores.

CaracterísticaTabela PriceSAC
Valor da parcelaFixo do início ao fimDecrescente mês a mês
AmortizaçãoCrescente ao longo do tempoConstante todo mês
Parcela inicialMais baixaMais alta
Total de juros pagoMaiorMenor
Uso no financiamento de veículoPraticamente padrãoRaro

Na prática, se dois bancos oferecessem o mesmo carro nas mesmas condições, mas um em Price e outro em SAC, o SAC sairia mais barato no total — só que com uma parcela inicial mais pesada, o que nem sempre cabe no orçamento de quem está começando. É uma troca entre economia total e fôlego no caixa mensal.

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Três decisões que a Tabela Price muda na prática

1. Prazo mais curto economiza mais do que parece

Como os juros incidem sobre o saldo devedor, um contrato mais curto reduz drasticamente o total pago em juros, mesmo com parcela mensal mais alta. No exemplo acima, trocar 48 por 36 meses reduziria o total de juros em vários milhares de reais — o trade-off é uma parcela mensal maior enquanto o contrato dura.

2. Quitação antecipada nos primeiros meses vale muito mais

Pela Lei 10.931/2004 e pelas normas do Código de Defesa do Consumidor, você tem direito a desconto proporcional dos juros futuros na quitação antecipada. Como no início da Price o saldo devedor está perto do valor cheio, antecipar cedo evita pagar a fase mais cara do contrato. Veja como calcular isso em quitação antecipada do financiamento.

3. Amortizar parcelas extras reduz prazo ou parcela — escolha bem

Se você receber um dinheiro extra e quiser amortizar, pergunte ao banco se prefere reduzir o número de parcelas restantes (economiza mais juros no total) ou reduzir o valor de cada parcela futura (alivia o orçamento mensal imediatamente). A primeira opção costuma ser mais vantajosa financeiramente.

Por que a Price sozinha não conta a história toda: o papel do CET

A fórmula da Tabela Price calcula juros e amortização, mas não inclui tarifas, seguros embutidos e IOF — isso é papel do CET (Custo Efetivo Total), que é o número que você deveria comparar entre bancos, não a taxa de juros pura da Price. Dois contratos com taxa de 1,99% a.m. podem ter CET final bem diferente dependendo das tarifas cobradas. Entenda esse cálculo completo em CET no financiamento de carro.

Vale lembrar também que, ao comparar propostas, o passo a passo de negociação importa tanto quanto a fórmula — veja o guia de como financiar um carro para o protocolo completo de comparação entre bancos.

Erros comuns ao interpretar a Tabela Price

Depois de ver dezenas de contratos e planilhas de amortização, alguns mal-entendidos aparecem com uma frequência que chama atenção. Vale revisar antes de assinar ou de decidir antecipar parcelas:

Como conferir a planilha de amortização que o banco te entrega

Todo contrato de financiamento pela Tabela Price deve vir acompanhado de uma planilha de amortização, mostrando parcela por parcela quanto é juro e quanto é amortização. Vale saber ler essa planilha para identificar inconsistências antes de assinar. Os passos abaixo mostram como a matemática funciona por trás dos números:

  1. Calcule o juro do mês: multiplique o saldo devedor do mês anterior pela taxa mensal contratada. No nosso exemplo, R$ 80.000 × 1,99% = R$ 1.592 — exatamente o juro da primeira parcela.
  2. Subtraia da parcela fixa: a amortização do mês é a parcela total menos o juro calculado. R$ 2.560 − R$ 1.592 = R$ 968, que é o valor que efetivamente reduz sua dívida naquele mês.
  3. Atualize o saldo devedor: subtraia a amortização do saldo anterior. R$ 80.000 − R$ 968 = R$ 79.032, que vira a base de cálculo do juro do mês seguinte.
  4. Repita até chegar a zero: como o saldo devedor cai a cada mês, o juro também cai, e a amortização cresce — sempre mantendo a soma igual à parcela fixa.

Se a planilha do banco não bater com essa lógica — por exemplo, se o juro do mês não corresponder à taxa contratada aplicada sobre o saldo anterior — vale questionar antes de assinar. É um dos jeitos mais simples de identificar cobrança de tarifas escondidas dentro do que deveria ser só juro.

Quando faz sentido preferir um prazo mais curto mesmo com parcela mais alta

Uma dúvida recorrente: "se a taxa é a mesma, por que financiar em 36 meses custa tanto menos que em 60?" A resposta está na mecânica que vimos acima. Quanto mais tempo o saldo devedor leva para cair, mais meses ele passa gerando juros sobre um valor alto. Veja a diferença de custo total no mesmo carro de R$ 80.000 financiado a 1,99% a.m. em prazos diferentes:

PrazoParcela aproximadaTotal pagoTotal em juros
24 mesesR$ 4.070R$ 97.680R$ 17.680
36 mesesR$ 3.070R$ 110.520R$ 30.520
48 mesesR$ 2.560R$ 122.880R$ 42.880
60 mesesR$ 2.250R$ 135.000R$ 55.000

Entre 24 e 60 meses, o total pago em juros mais que triplica no mesmo valor financiado e na mesma taxa. Isso não significa que prazo longo seja sempre errado — às vezes é a única forma de a parcela caber no orçamento — mas é importante escolher o prazo sabendo exatamente esse custo, e não só olhando o valor da parcela mensal isoladamente.

Fontes e leitura oficial

As regras citadas neste guia vêm da legislação e das publicações oficiais abaixo. Recomendo conferir direto na fonte antes de assinar qualquer contrato — normas mudam.

Qual a diferença entre Tabela Price e SAC?

Na Tabela Price as parcelas são fixas do início ao fim. No SAC a amortização é constante e as parcelas começam mais altas e vão caindo mês a mês. O SAC é raro em financiamento de veículo — é mais comum no crédito imobiliário.

Posso quitar antecipadamente um financiamento pela Tabela Price?

Sim. Pela lei brasileira você tem direito a desconto proporcional dos juros futuros na quitação antecipada. Peça ao banco o cálculo atualizado do saldo devedor antes de decidir.

Como calcular a parcela pela Tabela Price?

A fórmula é Parcela = PV × [i × (1+i)^n] / [(1+i)^n − 1], onde PV é o valor financiado, i é a taxa mensal em decimal e n é o número de parcelas. O simulador gratuito faz essa conta automaticamente.

Por que os juros pesam mais no começo do contrato?

Porque os juros incidem sobre o saldo devedor, que no início é o valor cheio financiado. Conforme você amortiza o principal, o saldo cai e os juros do mês seguinte diminuem, mesmo com a parcela igual.

Vale a pena antecipar parcelas em vez de quitar tudo de uma vez?

Depende do tipo de amortização escolhida com o banco: reduzir o prazo economiza mais juros no total; reduzir o valor da parcela mantendo o prazo alivia o orçamento mensal, mas economiza menos.

A Tabela Price é usada em todos os bancos?

É o padrão esmagador no financiamento de veículos no Brasil. Praticamente todo banco e financeira trabalha com Price nesse tipo de crédito, o que facilita a comparação entre propostas.